Chega ao fim a bagunça no futebol da Indonésia?

Até a temporada 2010-11, aquele Apaixonado por Futebol Alternativo que se aventurasse pela pirâmide do futebol indonésio encontraria as ligas daquele país, com suas divisões, tudo na mais perfeita organização, como, aliás, acontece em toda nação que pretende evoluir no que tange à prática do esporte. Porém, a partir da temporada 2011-12, talvez você tenha alguma dificuldade em decifrar o que ocorreu com o futebol local!

Esta é a tarefa sobre a qual o Plano Tático se debruçará, a partir de agora. Entenda os motivos que levaram a Indonésia a viver um período de incertezas sobre o futuro, com duas primeiras divisões, além de como se deu o primeiro grande passo para a resolução do impasse! Boa leitura!

Conflitos

O primeiro grande problema que envolveu o futebol do país ocorreu com o ex-presidente da Associação de Futebol da Indonésia (PSSI, em indonésio), Nurdin Halid. Envolvido em vários escândalos de corrupção no passado (foi preso em 2007, por evasão de divisas, mas continuou comandando a entidade, da prisão), o dirigente foi banido das eleições para a PSSI pela FIFA e impedido de tentar seu terceiro mandato – ficou à frente da entidade entre 2003-11.

Sem presidente, Agum Gumelar, que já teve cargos no governo do país, assumiu o comando da PSSI de forma interina, entre abril e julho de 2011, dando lugar ao atual mandatário da entidade, Djohar Arifin Husein (ficará de 2011-15). Porém, os problemas políticos continuaram a afetar os rumos do futebol indonésio.

Em 13 de julho de 2011, o então técnico da seleção da Indonésia, o austríaco Alfred Riedl, de 62 anos, ex-atacante da seleção de seu país, foi demitido, mesmo depois de ter alcançado o vice-campeonato da AFF Suzuki Cup 2010 (perdeu a final para a Malásia por 5 a 1, no placar agregado), repetindo o melhor resultado do país no torneio. A justificativa da PSSI para a demissão a uma semana do início das Eliminatórias Asiáticas para a Copa do Mundo de 2014 era de que o contrato havia sido assinado com a diretoria passada, e que este não teria validade para a atual, que começara apenas dois dias antes. “Eu ainda não recebi pagamento e já enviei todos os detalhes para a FIFA”, disse Riedl a um jornal indonésio.

 Corrupção

Além da incursão política dentro das escolhas da federação, outro grave problema que acomete o futebol da Indonésia é a compra de resultados, via propina. Em entrevista a um jornal alemão, o jornalista Sandy Premuji, que cobre a competição por um jornal indonésio, explicou os interesses escusos que envolvem o futebol nacional:

“A maioria dos clubes indonésios é financiado e depende de dinheiro público, em que o montante despendido no futebol chega a ser maior do que na educação ou na saúde”.

Para ele, a importância dos governos provinciais (equivalentes aos estaduais no Brasil) ante o poder central é prejudicial para o próprio país, já que os políticos utilizam os clubes para angariar votos nas eleições, se envolvendo em atos ilícitos para atingir os objetivos pessoais.

Alternativa ilegal

Insatisfeito e descrente com suspeitas em relação à classificação do Campeonato Indonésio 2010-11, uma das grandes personalidades do país, o empresário do petróleo Arifin Panigoro, de 66 anos, resolveu dar sua contribuição para a melhora da situação: simplesmente utilizou sua fortuna na contratação de técnicos e jogadores para 19 clubes – os que aceitaram a proposta – e fundou um novo Campeonato Indonésio, longe do investimento público!

O objetivo da nova liga nacional, chamada de Indonesia Premier League (IPL), era justamente a independência do dinheiro público, dar atenção aos novos valores do país e ainda contratar, sempre que possível, estrangeiros, a fim de melhorar a qualidade da competição. Porém, como era de se esperar, a federação local não validou o novo campeonato, tornando-o clandestino. É importante frisar que os atletas são todos profissionais, além de ampla cobertura da imprensa.

Enquanto isso, a PSSI continuou com sua liga nacional, a Indonesia Super League, que também é apoiada pela FIFA, que não reconhece a empreitada de Arifin Panigoro – que tem apoio de outros dirigentes, faça-se justiça. A entidade máxima do futebol mundial agiu com rapidez e enviou carta à PSSI informando das sanções que esperavam os desertores, com um simples aviso: “Tome conta da situação o mais rápido possível”. A entidade que rege o futebol indonésio repassou o documento para clubes, técnicos e jogadores, causando algumas decisões inusitadas de três equipes.

Arema Indonesia, PSMS Medan e Persija Jakarta optaram por participar das duas ligas nacionais, temendo punições das entidades competentes. Os dois primeiros ainda foram mais longe e possuem dois elencos totalmente diferentes, com treinadores distintos! A liga ilegal tem apenas 12 times e terminou com o título do Semen Padang, com 46 pontos em 22 rodadas (13v, 7e, 2d). Já a competição oficial conta com 18 equipes, vagas para as competições asiáticas, além de três para a segunda divisão e outra para os playoffs de despromoção – o torneio foi vencido pelo Sriwijaya, que tem o atacante brasileiro Hilton Mauro Moreira em seu elenco (veja mais informações – título Indonésia)

Seleção nacional

É claro e evidente que a confusão envolvendo o futebol local iria desaguar na seleção, que disputava as eliminatórias 2014. Tanto que, na última partida pela 3ª Fase da competição, quando a Indonésia já estava eliminada, um grupo de jogadores totalmente inexperientes foi convocado, enquanto os que eram normalmente chamados, a maioria integrante de times da nova liga nacional, foram desprestigiados. Assim, o mais experiente do time para o jogo diante do Bahrein era o atacante Irfan Bachdim (nascido na Holanda), de 23 anos, que completara apenas 13 partidas com a camisa da Indonésia.

O resultado foi um suspeito 10 a 0 a favor do bareinitas – o goleiro indonésio foi expulso com cinco minutos de partida e o Bahrein teve quatro pênaltis assinalados a seu favor –, o que resultou em investigação da FIFA. O Bahrein precisava de nove gols de diferença, a fim de desbancar o Catar, se este fosse derrotado pela Coreia do Sul, o que não aconteceu – houve empate em 2 a 2 (veja mais informações sobre as duas partidas). Neste episódio, a FIFA puniu apenas o técnico da Indonésia, o  local Anji Santoso, 42 anos, que acusou os árbitros da partida de terem recebido dinheiro para favorecer o Bahrein – suspensão de quatro jogos e 4.990 euros.

Os principais lances da partida

Imagem de Amostra do You Tube

Pressão final

Em 2012, a FIFA decidiu finalmente de fato pressionar a Indonésia para que resolvesse o impasse. O prazo era 20 de março de 2012, caso contrário, o país poderia ser suspenso da entidade, o que resultaria no impedimento de seleções de base e principal, além dos clubes do país de participar de competições internacionais. Em 6 de março, o governo da Indonésia decidiu parar de repassar dinheiro à federação nacional (PSSI), prometendo retomar a ajuda assim que tudo estivesse resolvido, o que o magnata Arifin Panigoro aproveitou, passando a ser o principal financiador da seleção principal do país.

Em 17 de março de 2012, a três dias do fim do prazo, a PSSI sugeriu que o Congresso Anual da entidade poderia ser ótima oportunidade para que as duas primeiras divisões se tornassem uma só. Ainda havia outro grande problema, ameaçado de ser criado pelo governo do país. Caso os dois lados não entrassem em acordo na reunião, o próprio governo tomaria o controle da PSSI, o que vai em desencontro com as normas da FIFA (interferência política no futebol), que já causaram a suspensão de Brunei, por exemplo (veja mais detalhes aqui – texto 2).

A resolução?

Em 8 de junho, durante o Congresso Anual da PSSI, os dois grupos finalmente assinaram o memorando de entendimento, que consiste em criar uma nova primeira divisão, totalmente fiel aos estatutos da Confederação Asiática de Futebol e da FIFA. A liga rebelde continuará existindo (tem início da temporada 2012-13 marcado para novembro de 2012), mas obedecerá às regras da entidade nacional indonésia. Um comitê conjunto entre Djohar Arifin Hussein, presidente da PPSI, e La Nyalla Matalitti, que representa o magnata do petróleo Arifin Panigoro, ainda revisará o estatuto da PSSI, até que haja possibilidade uma nova primeira divisão, totalmente unida, ser reconhecida como a única competição do país.

Assim, o futuro no país de 237 milhões de habitantes, além dos sete milhões de jogadores, sendo apenas 66 mil registrados, ainda está incerto! Num cenário como esse, será difícil a Indonésia evoluir no esporte! Uma pena para um país que já disputou uma Copa do Mundo, em 1938, como Índias Holandesas. Quais serão os próximos capítulos?

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