FIFA pode receber novo membro nos próximos anos: a esperança gelada

Foto: http://polar-bamserne.wifeo.com/

Um território autônomo da Dinamarca, com população pequena e esparsa, sem gramados naturais, com poucos campos sintéticos e um campeonato amador disputado em apenas uma semana. Um lugar desses merece vaga na FIFA e na UEFA? Os groenlandeses pensam que sim e prometem mover mundos e fundos no intento de ser o 212º membro da entidade mundial.

Em evento realizado na capital Nuuk, groenlandeses, islandeses e dinamarqueses debateram os rumos do esporte praticado na Groenlândia entre os dias 17 e 19 de agosto de 2016. Representantes da federação groenlandesa de futebol revelaram que pretendem ingressar na FIFA e na UEFA até 2020.

O plano inclui a construção de mais campos sintéticos e a instalação de 50 polos para treinamento de juízes e voluntários, além de aumentar consideravelmente o número de praticantes de futebol (de 5 mil para 10 mil até 2025). E a empreitada da Groenlândia tem o apoio dos dinamarqueses, que não ficam só na retórica: durante o evento, a federação dinamarquesa anunciou o investimento de até 25 milhões de coroas dinamarquesas no desenvolvimento do futebol groenlandês, algo em torno de R$ 11, 7 milhões.

A Groenlândia é uma ilha de dimensões continentais, equivalente ao Centro-Oeste do Brasil mais o estado de Minas Gerais – sua área litorânea é quatro vezes maior que a brasileira. Os pouco mais de 56 mil habitantes estão distribuídos no litoral, onde a temperatura é relativamente amena e não é coberta pela imensa camada de gelo que cobre 81% do território groenlandês. Como não há estradas e ferrovias interligando as cidades, os trajetos têm de ser feitos em aviões e embarcações.

Foto: www.greenland.com

As temperaturas na Groenlândia são baixas mesmo no verão. Na região norte, variam entre -20°C (inverno) e 6°C (verão). No sul, mais próximo da América do Norte e onde fica a capital Nuuk, as temperaturas variam entre -7.4°C (inverno) e 10,7°C no verão. Não parece muito convidativo para uma partida de futebol, não é mesmo?

Mas os groenlandeses não se deixam intimidar com o tempo inclemente e praticam da forma como podem o futebol, que disputa com o handebol o posto de principal desporto nacional. Segundo a federação groenlandesa de futebol, há cinco mil jogadores registrados (espantosos 8,9% da população) e 76 clubes.

Além das dificuldades estruturais e do isolamento, uma questão política pode complicar sua candidatura. Ultimamente, a UEFA tem exigido que os novos membros sejam estados independentes. Uma alternativa seria vincular-se a Concacaf, algo que não é tão absurdo se considerarmos que a ilha está mais próxima do continente americano do que do europeu.

Se a paixão pelo futebol for condição para um território ou país tornar-se membro da FIFA, a dedicação dos groenlandeses é a prova de que atendem a esse quesito. Mesmo com todos os óbices, os groenlandeses organizam campeonatos nacionais de futebol desde a década de 1950. Desde os anos 1970, a seleção nacional disputa amistosos e torneios, ainda que a maioria dos jogos seja contra seleções não filiadas à FIFA.

O Campeonato Groenlandês em 2016

Reprodução

A maioria das partidas é disputada em campos de terra. Grama sintética é algo relativamente novo para os groenlandeses: o primeiro campo utilizando o material foi instalado em 2009, em Qaqortog. O principal estádio do país possui grama sintética do mais elevado nível, mas não tem sequer arquibancadas. Desde 2016, o modesto Nuuk Stadium, que “acomoda” cerca de 2.000 espectadores em seus rochedos, ostenta grama artificial FIFA 2-star, o que hipoteticamente os permitiria receber jogos de campeonatos da UEFA.

Porém, a estrutura do futebol groenlandês é amadora. Contando com poucos recursos, é inviável custear passagens entre as cidades groenlandesas a cada jogo. Por isso, o campeonato nacional é disputado durante uma semana de verão em uma das cidades (em 2016 foi em Nuuk). Há uma etapa regional e, antes, uma etapa local para selecionar os participantes.

A fase nacional foi disputada por FC Malamuk (representante do Norte), G-44 e N-48 (região da Baía de Disko), B-67 e Kâgssagssuk (região Central), TM-62(região leste) e Siuteroq-43 (região sul). O IT-79 completa a lista de participantes como time escolhido pela cidade-sede do torneio. Todo o campeonato foi disputado entre os dias 7 e 14 de agosto, mas a fase de grupos durou apenas três dias (de 7 a 10 de agosto).

Os gols da liga groenlandesa de 2014

Imagem de Amostra do You Tube
No Grupo 1 estiveram N-48, IT-79, FC Malamuk e TM-62, com domínio total do N-48, que venceu as três partidas, incluindo uma goleada de 10 a 0 sobre o TM-62 – marcou 17 gols e não sofreu nenhum. Em segundo lugar ficou o IT-79, que venceu duas partidas e foi o detentor da goleada do campeonato (11 a 0 sobre o TM-62), embora tenha perdido de 5 a 2 para o N-48. Já no Grupo 2, que teve B-67 Nuuk, Siuteroq-43, G-44 e Kâgssagssuk, os resultados foram mais equilibrados, classificando-se B-76 (3v) e G-44 (2v).

Nas semifinais, o N-48 venceu o G-44 por 2 a 0, ao passo que o B-67 superou o IT-79 por 4 a 0. Portanto, o N-48 chegou à final sem tomar nenhum gol e tendo marcado 19 gols, enquanto o B-67 Nuuk, maior campeão nacional com 12 troféus, também estava invicto, mas com 12 gols a favor.

Na casa do N-48, os visitantes fizeram 3 a 1 no adversário e reafirmaram a hegemonia da competição, cuja primeira edição foi em 1955 e ocorre sem interrupções desde 1966. É o quinto troféu consecutivo do clube, o 12º na história, ultrapassando o N-48 no número de taças em 2013 – o adversário, de Ilulissat, tem dez títulos e era o maior campeão da Groenlândia há três anos.

Retrospecto dos Polar Bamserne

Mesmo não sendo filiada à UEFA e à FIFA, a Groenlândia tem uma seleção. Além de jogar amistosos contra adversários não filiados à FIFA, disputa os Jogos das Ilhas e teve pela frente dois torneios entre nações não reconhecidas pela FIFA (FIFI Wild Cup e ELF Cup).

Entre competições e amistosos, a seleção groenlandesa venceu 19 partidas, empatou seis e perdeu 42. Foram 132 gols marcados e 163 sofridos em 67 partidas. As maiores derrotas foram para Ilhas Faröe, Guernsey e Minorca, todas por 6 a 0. A maior vitória foi por 16 a 0 em cima de Sarkpelos no Island Games 2003, o que não dá para considerar como feito exatamente heroico, visto que o selecionado desta ilhado Canal da Mancha perdeu também para Gibraltar por 19 a 0 e para a Ilha de Wright por 20 a 0.

Os primeiro amistosos foram disputados em junho de 1977, na Dinamarca, contra Vejle FC, Hobro, Hernings e Aarhus. Os habitantes do gelo anharam duas partidas (8 a 5 sobre o Vejle FC e 4 a 2 sobre o Hobro) e perderam duas (5 a 0 para o Hernings e 3 a 2 para o Aarhus).

Curiosidade. O amistoso mais memorável da seleção groenlandesa foi contra a seleção do Tibete, não pela tradição do adversário, mas sim pela repercussão: a China, grande importadora de camarão da Groenlândia, ameaçou uma retaliação comercial caso o amistoso se efetivasse. A despeito de o jogo ter sido disputado em Copenhague, em junho de 2001, a China não cumpriu sua ameaça, e os groenlandeses venceram por 4 a 1.

As primeiras partidas da seleção groenlandesa em seu campo foram disputadas em 1983 pela Greenlandic Cup: empate em 0 a 0 e uma derrota por 3 a 2 para as ilhas Faröe, que foram o primeiro adversário membro da FIFA da Groenlândia (derrota por 6 a 0, em julho de 1980).

Desde 1989, a equipe participa do Island Games. Na edição de 2013, disputada em Bermuda, os groenlandeses conseguiram um honroso vice-campeonato, com duas vitórias e três derrotas – a equipe estreou levando de 3 a 0 dos donos da casa (vídeo), humilhou Froya (região da Noruega) por 12 a 0  e passou pelas Ilhas Falkland por 9 a 0.

Imagem de Amostra do You Tube

Sete anos antes, em 2006, a Groenlândia teve pela frente a FIFI Wild Cup, em Hamburgo, um torneio entre países não reconhecidos pela FIFA. Os Ursos Polares não passaram da primeira-fase, com duas derrotas em dois jogos (1 a 0 para o Chipre do Norte e 4 a 2 para Zanzibar). No mesmo ano, participaram da ELF Cup, organizada pela Federação do Chipre do Norte e também não passaram da primeira fase (1v, 1e, 1d) – venceu a seleção da Gagauzia por 1 a 0, perdeu de 1 a 0 do Quirguistão e empatou com Zanzibar (1 a 1).

Os últimos jogos da Groenlândia foram em julho de 2015, pelos Island Games (terminou em quinto lugar), já que há pouco dinheiro para a seleção se deslocar até outros países. Os treinamentos para torneios geralmente ocorrem na Dinamarca, onde os jogadores se acostumam com o campo gramado.

Claro, todos os atletas são amadores e muitos deles têm de pedir licença do emprego para estar em campo. Por causa dos Islands Games, resta aos atletas pedir demissão para realizar o sonho de defender sua seleção. Diante de todas essas dificuldades, parece improvável UEFA e FIFA aprovarem a terra gelada como membro. Por outro lado, o aceite de Kosovo dá esperança a Groenlândia!

Informações

- O jogador groenlandês mais famoso é o ponta Jesper Grønkjær, ex-Chelsea, Atlético de Madrid e seleção dinamarquesa. Ele nasceu em Nuuk e foi criado em Thisted, norte da Dinamarca. Aposentou-se do futebol profissional em 2011 jogando pelo Copenhagen (Dinamarca) e, aos 39 anos, está no FC Græsrødderne, da nona divisão.

- Os jogadores da seleção groenlandesa são amadores, mas alguns atletas dos Ursos Polares que jogaram no exterior. Niklas Kreutzmann e Joorsi Skade disputaram as divisões inferiores do futebol dinamarquês.

Foto: Site oficial do Silkeborg

- Nichlas Storch Nielsen é uma das principais promessas do futebol groenlandês. Aos 15 anos, estreou no Silkeborg (Dinamarca). O garoto, oriundo de Nuuk, jogou no B-67 e foi artilheiro do campeonato nacional e de um torneio na Islândia. A estreia precoce no B-67 foi reflexo do Island Games de 2015: 11 jogadores do clube estavam servindo a seleção groenlandesa.

- O alemão Sepp Piontek treinou a seleção groenlandesa duas vezes (2000/02 e 2004) e fez fama como jogador após longa passagem pelo Werder Bremen entre 1960 e 1972. Como treinador, também comandou as seleções haitiana (1976/78), dinamarquesa (1979/90) e turca (1990/93), além de passagens em clubes como Werder Bremen, Bursaspor e Silkeborg.

- O eritreu Tekle Ghrebrelul e o groenlandês Rene Olsen são os atuais técnicos da seleção da Groenlândia, trabalhando com a equipe desde 2013.

- Apesar de ser território da Dinamarca como a Groenlândia, as Ilhas Faröe são membro da FIFA desde 1988.

- Robert Pires (ex-Arsenal) e os Variétes Club de France disputaram um amistoso contra jogadores veteranos da Groenlândia no Nuuk Stadium, em 2014. O jogo terminou 1 a 0 para os groenlandeses. 1000 espectadores presenciaram o jogo.

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