Leonardo Vitorino na seleção de Camboja: esperança de desenvolvimento

Camboja, país desconhecido da maioria dos brasileiros, de cultura totalmente distinta à nossa. Do outro lado do mundo, no Sudeste Asiático, a maioria dos quase 16 milhões de cambojanos residentes no território nacional (país vizinho a Laos, Vietnã e Tailândia) é apaixonada por futebol, mesmo a seleção estando apenas no 173º lugar no Ranking FIFA (abril/2017), atrás de Santa Lúcia, Kosovo, Nepal e Barbados, por exemplo.

No último dia 28 de março de 2017, Camboja deu o pontapé inicial na última chance de se classificar para a Copa da Ásia 2019, o que dificilmente deve ocorrer. Chama a atenção o técnico à beira do campo: o brasileiro Leonardo Vitorino, 44 anos, que tem vasta experiência no futebol asiático (veja outras entrevistas do Plano Tático com ele) e há pouco tempo estava trabalhando num time de Laos.

O grande objetivo de Leonardo Vitorino no país é desenvolver o futebol, tarefa difícil. Mas é desse tipo de desafio que ele gosta. Camboja aposta no conhecimento do treinador brasileiro, que assinou contrato longo no início de março de 2017 e em menos de um mês já disputou duas partidas. O relacionamento entre a federação cambojana e Leonardo Vitorino começou em 31 de dezembro de 2016, quando ele ainda comandava o Lanexang United, de Laos:

“Vencemos o Bounket Anghkor [um dos melhores times de Camboja] por 3 a 0, e alguns clubes do país já vinham demonstrando interesse”, disse o técnico brasileiro em entrevista exclusiva ao Plano Tático. A primeira manifestação oficial só ocorreu no fim de janeiro deste ano, quando o Lanexang United, atual campeão nacional sem perder um jogo sequer, resolveu desistir não só do campeonato local, mas também da AFC Cup, espécie de Copa Sul-Americana dos asiáticos.

Sem o emprego em Laos, Leonardo Vitorino não teve muito tempo de descanso: “Recebi ligação direta do presidente da federação, que já vinha me acompanhando em todos esses anos”.  Assim, o técnico mais uma vez se deslocou no continente, agora para a capital Phnom Penh, maior cidade do país, com mais de 1,5 milhão de habitantes.

O projeto de Leonardo Vitorino

Durante a conversa com o presidente da federação, Leonardo Vitorino recebeu a incumbência de conduzir um projeto de longo prazo. Camboja vai sediar o Asean Games 2023, espécie de Olimpíadas do Sudeste Asiático, que em 2015 foi disputado em Cingapura e teve 39 modalidades, algumas inexistentes nas Olimpíadas tradicionais.

Uma das competições foi a de futebol, na qual Camboja somou quatro pontos em quatro jogos no Grupo A, ficando à frente apenas de Filipinas, que perdeu todas as partidas. Antes de pensar no futuro distante, porém, Leonardo Vitorino sabe que tem pela frente mais cinco rodadas das eliminatórias para a Copa da Ásia 2019.

Antes de estrear nesta etapa do qualificatório, Camboja enfrentou a Índia num amistoso em 22 de março, em casa. Com mais de 50 mil pessoas no estádio Olímpico, a seleção de Leonardo Vitorino perdeu de 3 a 2, aumentando o jejum contra o adversário, que não perde desde 1967 (quatro jogos). Foi o primeiro contato do brasileiro com o povo local: “O que me surpreendeu foi a paixão dos cambojanos por futebol e pela seleção, o apoio foi do início ao fim. Não vi isso em lugar nenhum”, explica em entrevista exclusiva ao Plano Tático.

Seis dias depois, Camboja mediu forças com a Jordânia, fora de casa. E o placar de 7 a 0 reflete a atual diferença entre as seleções, abismo que Leonardo Vitorino quer diminuir: “Em cinco anos, esse foi apenas o segundo jogo contra países do Golfo – o primeiro foi contra a Arábia Saudita, que venceu por 7 a 2”.

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Leonardo Vitorino aponta a Jordânia como favorita à liderança da chave, já que “fizeram a repescagem nas eliminatórias da Copa 2014 contra o Uruguai e têm atletas mais capacitados. Estamos começando um trabalho do zero, mas quem sabe possamos surpreender Afeganistão e Vietnã, adversários que nunca vencemos na história”.

O técnico cita ainda os problemas que contribuíram para a derrota… “Saímos de uma temperatura de 38ºC para jogar em Amã, que estava com 9ºC. A alimentação era diferente da que os atletas estão acostumados e tive uma semana para treinar”.

Aliás, o principal motivo para as duas derrotas é justamente o elenco escolhido por Leonardo Vitorino: “Convoquei seis jogadores pela primeira vez e tivemos em campo o atleta mais jovem a atuar nas eliminatórias da Copa da Ásia (Seut Baraing, 17 anos). Tudo isso para dar experiência aos jogadores mais novos, pois nossa meta principal são os Asean Games 2023, não os resultados em curto prazo”, explica o brasileiro.

Para se ter uma ideia, a seleção de Camboja teve média de 21,2 anos, com apenas dois atletas acima de 25 anos e goleiros com 21 e 19 anos. Só dois atuam no exterior: o atacante Chan Vathanaka, 23 anos, do Fujieda MYFC, da 3ª divisão japonesa (é o artilheiro da atual seleção com 11 gols), e o meia Thierry Chantha Bin, 25, do Krabi, da 2ª divisão da Tailândia.

“Vathanaka é o grande jogador daqui, pois tem qualidade técnica muito acima dos demais e inteligência tática. Chantha Bin e Mouny Udon também são jogadores de muita qualidade. Chamei ainda Hoy Pallin, 21 anos, que vem se destacando e ninguém conhecia. Ele tem força e inteligência tática superior às dos jogadores da região”, informa.

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À frente também da seleção olímpica, justamente para trabalhar os mais jovens com vistas a inseri-los na seleção principal, Leonardo Vitorino terá mais cinco partidas do qualificatório da Copa da Ásia 2019 até 27 de março de 2018. O próximo compromisso é em 13 de junho, contra o Afeganistão em casa, e em setembro Camboja encara o Vietnã, também em Phnom Penh. Mas não é só nos jogos oficiais que a seleção vai encarar adversários complicados:

“Teremos a partir de agora jogos mais difíceis do que os que a seleção vinha fazendo, pois passei para a federação que quero enfrentar nações mais fortes, para que em dois anos tenhamos resultados positivos”.

Por isso mesmo, Leonardo Vitorino já está planejando amistosos contra Japão e China, por exemplo: “Precisamos evoluir física, tática e tecnicamente, por isso a vinda de jogadores mais jovens. E isso será mais rápido contra adversários mais fortes. Muitas pessoas não têm paciência para esperar, no Brasil não haveria esse tempo. Mas fui contratado para isso, independentemente de estar aqui em 2023, vou fazer o que acho certo”.

O futebol em Camboja

Para convocar atletas tão jovens assim, é claro que Leonardo Vitorino aproveitou seu tempo em Phnom Penh para observar algumas partidas da liga nacional, que começou em 18 de fevereiro. São 12 times na elite e temporada de 22 rodadas, com 49 atletas estrangeiros, incluindo quatro brasileiros. A 2ª divisão, por exemplo, teve sua primeira edição em 2016. Aliás, é esse torneio que Leonardo Vitorino influenciou logo de cara…

“Assim que cheguei, sugeri que a 2ª divisão fosse disputada sem jogadores estrangeiros e fosse sub-23. Foi muito bem aceito e o torneio já será dessa forma em 2017. Isso faz com que novos atletas surjam e os investimentos na base aumentem”.

Segundo o técnico brasileiro, os clubes ainda precisam investir em profissionais capacitados para ajudar na evolução física e técnica dos jogadores, mas estão se profissionalizando cada vez mais. O Phnom Penh Crown é o maior clube do país, mas Sway Ryeng, National Defense Ministry e Boeung Ket Angkor têm bons times na visão de Leonardo Vitorino.

Este último, aliás, é o atual campeão nacional e está disputando a fase de grupos da AFC Cup 2017, o primeiro time do país a jogar esta etapa da competição. Mas Leonardo Vitorino quer os clubes ainda mais preparados:

“Estamos montando um plano de desenvolvimento físico e técnico para o país e já temos passado aos clubes. Em breve teremos algumas novidades que nenhum país ainda teve na Ásia. Teremos um plano de excelência em treinamento esportivo que, ser for seguido, teremos jogadores mais preparados nos clubes e na seleção. Além disso, já apresentamos o Plano de Captação de Jogadores e Desenvolvimento nos Estados para que o processo seletivo seja cada vez melhor por meio de olheiros em cada estado”, explica o técnico brasileiro ao Plano Tático.

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O público no Campeonato Cambojano ainda é pouco, mas há quatro equipes que levam torcedores ao estádio. “As outras estão iniciando um processo de marketing para atrair mais o público, até porque são clubes novos e que estão investindo em estrutura primeiramente. Acredito que dentro dos próximos três anos Camboja será sucesso de publico na Ásia também no que diz respeito aos clubes”, planeja Leonardo Vitorino.

O técnico brasileiro está empolgado com o grande desafio que tem pela frente e sabe que vai precisar continuar trabalhando diariamente a fim de proporcionar ao povo cambojano uma alegria no futebol. O Plano Tático ficará de olho na seleção e em Leonardo Vitorino!

Minientrevista

Como é viver em Phnom Penh, a capital do Camboja?

Ainda não tive tempo de conhecer nada, pois cheguei há um mês e tive dois jogos, o que me ocupou todos os dias. Nos fins de semana, ainda via as partidas locais com meu staff brasileiro (o treinador de goleiros Luís Fernando e o preparador físico Willander Fonseca), o que me impossibilitou de conhecer os pontos turísticos de Camboja. Farei isso com minha família, que chega ao país em abril.

Por enquanto, o que pude perceber é que toda capital tem trânsito, e o daqui é muito grande e tem principalmente motos. A culinária cambojana é uma das mais apimentadas da Ásia e isso me tem feito recorrer ao shopping para almoçar algumas vezes, quando não dá tempo de comer em casa.

Você já trabalhou na seleção sub-15 da Austrália, sub-17 dos Estados Unidos e foi auxiliar na de Trinidad & Tobago. Em seu primeiro trabalho numa seleção principal, quais as diferenças de comandar um clube?

Nos clubes você tem mais tempo para treinar e ajustar o time, tem jogos mais fáceis para poder testar jogadores, rodar o elenco. Na seleção, o tempo é muito menor e você precisa escolher os jogadores de acordo com sua característica de jogo. É um trabalho mais complicado, pois a equipe precisa estar evoluindo mesmo sem haver o tempo necessário de trabalho para aumentar as capacidades físicas, técnicas e táticas dos jogadores.

O que pode falar da construção do novo estádio em Camboja?

O estádio Nacional de Camboja ficará em Phnom Penh, terá 55 mil lugares e vai ocupar uma área de 80 mil metros quadrados. Nesse bônus que envio em primeira mão para o Plano Tático, ninguém divulgou isso no Brasil, há duas fotos ilustrativas do estádio, que está 80% pronto e servirá de abertura do Asean Games 2023.

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