O desbravador da Ásia – Parte Final

Acompanhe, agora, a última parte da entrevista de Almiro Valadares ao Plano Tático!

Link da 1ª: http://www.planotatico.com/entrevistas/o-desbravador-da-asia

Link da 2ª: http://www.planotatico.com/entrevistas/o-desbravador-da-asia-parte-2

Link da 3ª http://www.planotatico.com/entrevistas/o-desbravador-da-asia-parte-3

Mianmar 

Apresentação de Almiro no Manaw Myay

Você mora numa nação de muitas particularidades. Como está a situação do país, um ano após uma onda de violência das tropas da junta militar que governam Mianmar entrarem em confronto com minorias étnicas?

Tudo sob controle, sem sinais de novos confrontos. Pais destruído, tudo muito antigo e sujo. O povo, igualmente, miséria total. Há muito nas mãos de poucos, o restante da população nada tem.

Em que clube está? Como está o campeonato, em que posição?

Estou no Manaw Myay FC, cheguei no intervalo entre turno/returno, no qual o time ocupava a nona posição. Joguei até agora três partidas, vencendo duas e perdendo uma, para o líder, Yadanarbon FC, fora de casa. Ainda ocupamos o nono lugar, mas a diferença para o sétimo já caiu para um ponto. Acredito que possamos terminar a competição num quinto lugar, o que seria muito bom para o clube, que está estreando no futebol profissional em 2010.

Entrevista de Almiro ao site oficial do clube de Mianmar

Há tranquilidade para se jogar futebol?

Sim, não há qualquer sinal de perigo, apesar do pouco tempo pós-guerra.

Quais as maiores dificuldades que você tem no dia-a-dia?

Conexão com a internet está sendo o pior dos problemas. Muito dificil o acesso e quando o tem nos deparamos com websites bloqueados pelo governo, o que particularmente me tira muito a paciencia. Telefonia celular atrasada, aqui precisamos comprar chip(SIM CARD) de USD 25,00, paga-se caro pelo minuto da ligacao(aprox. 4 dolares), o mesmo para receber chamadas; quando acaba os creditos vc simplesmente perde o numero e tem q comprar um novo chip. Nao ha banco muito menos servico de remessa de dinheiro, entao grana aqui entra e sai do pais apenas dentro da mala.

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Como é a sua comunicação no dia-a-dia?

O clube possui um profissional que fala inglês, ajudando um pouco na parte dentro de campo. Em casa, tenho um mordomo que também fala inglês, resolvendo todas as outras coisas no que diz respeito ao dia-a-dia fora do trabalho. Trata-se de um país muito pobre, onde o povo se contenta com o pouco que tem, até porque não há perspectiva de melhora ou mudança.

Até quando pretende ficar no país? Por quê?

Tenho contrato até 2 de dezembro, mas a liga nacional se encerra em 6 de Novembro. Logo, planejo sair daqui no dia seguinte ao último jogo e realmente não tenho a mínima vontade de renovar para a temporada de 2011. Não há qualidade de vida em Mianmar, minha rotina se limita a casa-trabalho-casa. Fora isso, só se vê miséria em volta, tudo muito pobre e destruído.

Aprendizado/futuro 

Você pôde experimentar culturas totalmente diferentes da brasileira. Qual o melhor país, pelos quais passou, é o melhor para se viver? Por quê?

Suécia, onde tudo funciona de maneira perfeita: sistema de transporte, saúde, educacao, urbanização. Um país rico e moderno, no qual as loucas e lindas mulheres nos fazem esquecer do frio que ali persiste quase todo o ano (risos).

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Você se arrepende de alguma coisa que fez em sua carreira, que atinge, neste momento a metade? O que faria de diferente?

Não carrego como arrependimento, mas, sim, como um detalhe que poderia ter mudado todo meu rumo no futebol. Aos 13 anos, fui convidado para o Atlético-MG, pelo então supervisor das categorias de base e treinadores do infantil/juvenil. Mas recomendaram a minha família que me colocassem na casa de algum parente ou conhecido, em Belo Horizonte, pois havia, na época, diversos problemas no alojamento do clube. Como não havia onde me hospedar em BH, deixamos a oportunidade para mais tarde, o que não veio a acontecer, pois parei de jogar logo em seguida e voltei anos mais tarde, já com outro rumo traçado.

Concentração da equipe antes de entrar em campo pelo campeonato nacional

Um ocorrido ano passado me faz deixar aqui, um depoimento, para que não venha a acontecer com outros jogadores. Empresários não credenciados na FIFA podem custar caro. Fui levado ao Vietnam, em 2009, por um camaronês que “pagou” as passagens. Porém, chegando lá, não havia nada certo. Colocaram-me para ser avaliado por aqueles técnicos que parecem mais treinar soldados do que jogadores. Insatisfeito, resolvi voltar e, ao fazer meu check-in no aeroporto, fui informado de que meu e-ticket havia sido cancelado pelo dono do cartão de crédito que comprou as passagens. Resumindo, cuidado com os africanos não credenciados, pois trabalham de maneira desonesta, clonando cartões, e depois somem do mapa.

O que pretende fazer no futuro? Tem algum clube em mente?

Após o fim da temporada em Mianmar, devo passar uma semana de ferias nas praias da Tailândia (Pattaya/Phuket) e logo em seguida irei para a Malásia, onde meu empresário possui diversas conexões e já esta acertando contrato. A pré-temporada malaia se inicia em novembro e o campeonato dura até agosto de 2011. Há também contatos para voltar à Tailândia, dessa vez para a Thai Premier League e até para Cingapura, uma opção que também me agrada bastante. Vindo a optar por Tailândia ou Cingapura, iria me apresentar em meados de janeiro, o que me daria tempo suficiente para ir ao Brasil rever minha família, amigos e as namoradas (risos).

Como você define a profissão jogador de futebol?

Sacrifício. A maioria das pessoas veem o futebol pela televisão e imaginam o jogador como um milionário, com boa vida. Mas essas mesmas pessoas não sabem que estes que elas assistem pela TV, famosos e esbanjando dinheiro, representam apenas 5% do total de profissionais do mercado.  Os outros 95% estão na luta, correndo atrás de um espaço melhor. Muitos pelo interior do Brasil, jogando estadual por quatro meses e o resto do ano parados, por falta de oportunidade ou contatos. Todo ano, aproximadamente 1.500 jogadores acertam contratos mundo afora, cada canto desse planeta há brasileiros espalhados em busca de boas condições de trabalho e financeiras.

Para tanto, abrimos mão de estar perto de nossas famílias, não temos o famoso fim de semana para curtir com os amigos, o tal do feriado onde as pessoas viajam para descansar, o carnaval que tanta falta me faz (risos). Tratam-nos como guerreiros porque só quem vive nossa rotina sabe o quanto é difícil superar tantas adversidades, tudo isso pelo prazer de entrar em campo e fazer a alegria dos torcedores.

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