Nome: Rommel Araujo de Oliveira
Data de nascimento: 20/05/1963
Profissão: treinador de goleiros
Clubes: Nova Cidade-RJ (1989-90 e 2011), Mesquita-RJ (1991), Olaria-RJ (1992-00), seleção brasileira sub-17 (1995 e 2003), Americano-RJ (2000), infantil/juvenil Botafogo-RJ (2000-03), Nova Iguaçu-RJ (2003-06 e 2012-atual), sub-17 Botafogo-RJ (2008), seleção brasileira sub-20 (2009), principal Botafogo-RJ (2006-09), juniores America-RJ (2010), Bonsucesso-RJ (2010) e CEFAG (2011).
Introdução
Rommel Araujo tem vasta experiência na função de treinador de goleiros, iniciando a carreira como estagiário no Nova Cidade-RJ, em 1989. Após 23 anos de serviços prestados a vários clubes, Rommel, nesta entrevista exclusiva ao Plano Tático, explica em detalhes o que faz um treinador de goleiros e como a função é observada nos clubes brasileiros. Boa leitura!
Início
Como surgiu o interesse em ser treinador de goleiros?
Eu queria ser goleiro profissional, mas desisti em virtude da baixa estatura. Como achava interessante os treinamentos específicos, resolvi me tornar prepardor de goleiros. Nesse sentido, busquei a formação universitária e iniciei como estagiário no EC Nova Cidade-RJ.
Seu primeiro clube, o Nova Cidade-RJ, disputou o Campeonato Carioca de 1989, terminando na oitava posição, dois pontos à frente da zona de rebaixamento, que levou Volta Redonda e Olaria para a segunda divisão. Como era a profissão de treinador de goleiros naquela época?
Especificamente no EC Nova Cidade, a função do preparador de goleiros era bastante valorizada e apoiada. Eu percebia esta valorização e apoio de pessoas como sr. Gelson Chagas (presidente), Valinhos, Luis Carlos de Freitas e Ica (treinadores), Fernando Faria (preparador físico) e do sr. Ênio Faria (supervisor). Esta valorização era materializada com a exigência da participação do preparador de goleiros por parte da comissão técnica e diretores e com os cumprimentos e os parabéns pelo trabalho (resultado). Não tinha, na época, uma visão mais abrangente de como era isso em outros clubes. Contudo, traçando um paralelo com os dias de hoje, onde a “profissão” ainda não é valorizada a contento por alguns segmentos do futebol, concluo o quanto deveria ser muito mais difícil para os preparadores mais experientes da época.
Você voltou ao clube em 2011. O que percebeu de mudanças em relação à profissão de treinador de goleiros?
Hoje o EC Nova Cidade passa por seríssimos problemas no que tange à condição financeira, estrutural e de logística. Hoje não existem mais profissionais e dirigentes no clube para te dar o feedback profissional de outrora. Apenas, na época deste retorno, o atual presidente Sinésio Benedeti e o ´´supervisor“ Marco Cerdá (que já não se encontra mais no clube) comungam da mesma opinião em relação à importância do preparador de goleiros.
Seleção brasileira
Você fez parte da comissão técnica do sub-17 e sub-20 do Brasil. Com quais goleiros trabalhou?
Muitos profissionais passaram pelas minhas mãos, com destaque para alguns que hoje são conhecidos nacional e internacionalmente, como Diego Alves [revelado pelo Botafogo-SP, mas que teve sucesso pelo Atlético-MG; hoje joga no Valencia/Espanha], Jefferson [com 29 anos, é goleiro do Botafogo-RJ e vem recebendo chances de Mano Menezes na seleção brasileira], Renan, do Internacional-RS [depois de falhar na Espanha, está de volta ao clube que o revelou, aos 27 anos].
Trabalhei com outros menos famosos, no início da carreira, como Yamada, revelado pelo Corinthians-SP [aos 33 anos, defende o Grêmio Osasco-SP] e o jovem Bruno Landgraf [após acidente automobilístico que lhe deixou tetraplégico, Bruno deu a volta por cima e, aos 25 anos, estará em Londres 2012, como velejador].
Botafogo-RJ
Você trabalhou no clube carioca em duas oportunidades, entre times de base e profissional. O clube grande, em sua opinião, dá mais espaço para o treinador de goleiros, ou isso não acontece?
Irei abordar a questão sob duas óticas. Primeira: não existe diferença entre clube grande e clube pequeno no que diz respeito à conscientização e percepção para a necessidade dos preparadores de goleiros em seus clubes. Todos os clubes esforçam-se para ter este profissional nos quadros de suas comissões técnicas.
Segunda: alguns clubes grandes facilitam a atuação dos preparadores de goleiros com uma melhor logística de trabalho, desde a captação e descoberta até o aproveitamento em sua categoria profissional, passando pelo treinamento e aprimoramento.
Em 26 de julho de 2010, o profissional Rodrigo Barroca Teixeira, em entrevista exclusiva ao Plano Tático, fez o seguinte comentário:
“Infelizmente, o Brasil é o único país do mundo onde o treinador de goleiros não senta no banco de reservas durante as partidas, tendo que ir para a arquibancada assistir ao jogo, ficando impossível passar alguma informação ao seu atleta. Acho que ainda falta reconhecimento dos clubes e das federações brasileiros com os treinadores de goleiros para que se criem condições de se realizar grandes trabalhos com os nossos atletas”. (leia toda a entrevista aqui)
O que tem a dizer sobre isso? Alguma coisa mudou?
O Rodrigo Barroca foi muito feliz em seu comentário. O treinador e preparador físico, que estão autorizados a ficar no banco de suplentes, trocam informações a todo instante sobre o desempenho de sua equipe (conjunto) e das ações individuais de cada atleta, observando pontos fortes e fracos, a fim de potencializá-los e/ou corrigi-los. Nesse sentido, o preparador de goleiros teria essa mesma possibilidade e, além disso, promover observações e correções a respeito de seu atleta (goleiro), nas ações individuais (específicas) e coletivas.
Treinador de goleiros
Quais os principais exercícios que um treinador de goleiros exerce?
Temos quatro grandes áreas de atividades, a saber. Há os exercícios técnicos, específicos, em que acontece o treinamento dos fundamentos do goleiro, como reposições de bola, entradas e quedas. De preferência simulando situações de jogo.
Obviamente, os exercícios físicos também fazem parte da rotina de um goleiro, em que ele treina as valências [níveis] físicas e fontes energéticas específicas aos goleiros, como velocidade de reação, força rápida e flexibilidade.
Há ainda os exercícios das capacidades coordenativas, nos quais o atleta trabalha fatores e subfatores psicomotores, como lateralidade [cair para os lados para fazer defesas], coordenação óculo-manual e peral e coordenação motora ampla [visão de jogo]. Por último, o goleiro deve participar de exercícios que visam a treinar a mentalização do gesto desportivo específico, das ações motoras [capacidade de antever as jogadas].
Porque todo clube que se julga profissional precisa ter um profissional dessa categoria?
O mundo caminha para a especialização e este conceito também chegou ao futebol. Uma equipe de futebol necessita de um profissional para trabalhar as especificidades de uma função tão técnica, particular e complexa, como é a do goleiro.
Qual a principal diferença entre preparador e treinador de goleiros?
A terminologia preparador de goleiros dá a conotação de um profissional com melhor formação e preparação para o exercício da função. Encara-se o preparador como um profissional que domina e aplica conhecimentos científicos à preparação específica de seus atletas. Por outro lado, a terminologia treinador de goleiros dá a conotação de um profissional que normalmente reproduz os treinamentos aos quais foi submetido enquanto era atleta e de uma forma mais empírica [prática].
Você está no mercado desde 1989. Em sua opinião, houve evolução na qualidade desses profissionais no futebol brasileiro? O que ainda precisa melhorar?
A preparação de goleiros no país começou a tomar novo rumo a partir de 1970, quando Raul Carlesso, no Rio de janeiro, e Valdir Moraes, em São Paulo, iniciaram treinamentos específicos com seus goleiros. A atuação destes profissionais, que proporcionou uma melhora na performance técnica de nossos goleiros, faz eclodir um fenômeno: o surgimento de treinadores de goleiros pelo país.
Na medida em que nossos goleiros evoluíam, crescia também a exigência destes por melhores treinamentos. Esse fato fez com que nossos ´´treinadores de goleiros“ buscassem aprimoramento, o que, inevitavelmente, os conduziram à uma evolução. Porém, ainda há pontos em que é preciso melhorar.
O treinamento deve se tornar mais científico [com mais informações e dados disponíveis do goleiro]. Alguns dirigentes, técnicos de futebol, jornalistas e alguns atletas deixam de associar competência à quem foi atleta [de linha]. Para muitos, só serve para ser treinador de goleiros quem já foi goleiro profissional. Puro preconceito!
Você se formou no curso de treinador de futebol pelo Sindicato de Treinadores do Rio de Janeiro, em 1993. Para ser treinador de goleiros é preciso antes ser treinador de campo?
Existem duas exigências principais para exercer a função de técnico de futebol: Uma delas é que o candidato que tenha sido atleta profissional, comprovado em carteira, no mínimo 3 anos ininterruptos e/ou 5 anos intercalados. A outra é que tenha formação universitária em euducação física (licenciatura e/ou bacharel).
No caso dos treinadores de goleiros, não existe legislação. Os mesmos obedecem as regras para os treinadores de futebol. Existem treinadores de goleiros que foram zagueiros, por exemplo. Com relação a cursos para essa função, eventualmente tomamos conhecimento da existência de alguns profissionais que, de forma particular, elaboram cursos para treinadores de goleiros, o que, particularmente, vejo com bons olhos. Inclusive, tenho vontade de montar um curso.
Levando-se em conta seus trabalhos ao longo da carreira, é normal o técnico principal interferir no trabalho do treinador de goleiros?
O preparador de goleiros deve participar da elaboração do planejamento de trabalho anual, mensal, semanal e diário (macrociclo, mesociclo, microciclo e a unidade ou sessão de treinamento) [ou seja, a carga e a forma de treinamentos de cada jogador do elenco] organizado entre os membros da comissão técnica.
Nesse momento, os membros da comissão técnica irão se posicionar para cada momento particular e coletivo de trabalho, partindo da diretriz principal traçada pelo treinador. A interferência tem uma característica positiva e é, na verdade, a liberdade dada pelo treinador da equipe para o posicionamento de cada membro da comissão técnica no seu planejamento específico.
Futebol carioca
Em toda a sua carreira, você trabalhou em clubes do Rio de Janeiro. Como anda a infraestrutura das agremiações, de forma geral? O que pode apontar como melhora e o que ainda necessita de mais atenção?
Em linhas gerais, podemos observar um esforço dos dirigentes de clubes grandes em melhorar a estrutura física e a logística de suas divisões de base, uma vez que na categoria profissional os clubes possuem ótima estrutura. Abro parênteses para elogiar e parabenizar o Botafogo-RJ, na figura de seu atual presidente (Maurício Assumpção), que transformou as divisões de base do Botafogo colocando-as com estrutura do mais alto nível.
Quanto aos clubes de menor investimento, faço registro de que, semelhante ao Botafogo, o Nova Iguaçu FC, na figura de seu presidente Jânio Moraes, está na vanguarda entre as equipes da mesma categoria. O Nova Iguaçu FC é referência de competência na área administrativa, técnica e de pessoal.
CEFAG
O Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Goleiros tem unidades espalhadas por todo o Brasil. Você trabalhou no Rio de Janeiro, onde a entidade teve parceria com o Nova Cidade. Quais as vantagens que um centro como esse pode oferecer ao goleiro em relação à carreira dentro do clube profissional?
O CEFAG existia na sede do EC Nova Cidade, na cidade de Nilópolis-RJ. Foi idealizado pelos professores Marco Cerdá, Leonardo Vitorino (veja entrevista com o profissional, em 4 partes), Marcelo Pires e eu. Tínhamos a ideia de expandí-lo, mas, por motivos financeiros, particulares e contratuais não foi possível e, no momento, o projeto está paralisado.
As vantagem são muitas. Aos iniciantes, é importante descobrir qual seu potencial atlético específico, por meio de exercícios de iniciação aos fundamentos dos goleiros. Aos iniciados, o desenvolvimento técnico, físico e tático através de instruções e treinamentos específicos (fundamentos e situações de jogo). Já para os atletas de “alto nível”, os treinamentos auxiliam no aperfeiçoamento técnico, físico e tático através de instruçoes e treinamentos específicos (fundamentos e situações de jogo).
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