Liga Inglaterra 1ª Divisão - Plano Tático

David James abraça alternatividade e tenta ser treinador

Desde a criação da Premier League, em 1992, a Inglaterra jamais viu outro goleiro, a não ser David James, passar tantos jogos sem sofrer gols. Em 173 oportunidades, o guarda-redes deixou o gramado sem ser vazado, em 18 anos atuando no primeiro nível na Terra da Rainha. Nada mal para o garoto de origem humilde que durante os anos 1980 teve de tomar decisão difícil para manter vivo o sonho de se tornar jogador de futebol profissional.

Entre 1997 e 2010, David James defendeu a seleção inglesa em 53 partidas. Três delas na Copa do Mundo 2010, quando assumiu a titularidade ao longo do torneio. Esteve nas duas edições anteriores (2002 e 2006), como terceira e segunda opção, respectivamente. Participou, também, da campanha dos Three Lions na Eurocopa 2004.

O invejável currículo não foi empecilho para que David James ignorasse convites de clubes um tanto quanto alternativos e bem menos gloriosos em relação aos que defendeu em boa parte de sua trajetória. Desse modo, o arqueiro de 44 anos é um dos mais longevos do futebol. Mais do que a paixão pela função que desempenha profissionalmente há duas décadas e meia, a necessidade de manter-se ativo financeiramente resulta nas alternatividades de David James.

Currículo de respeito

Fervoroso torcedor do Luton Town (atualmente na quarta divisão inglesa), David James praticou suas primeiras defesas no grande rival, Watford. Ascendeu ao time principal em 1989 e, mesmo na segunda divisão, suas atuações causaram impacto em âmbito nacional. David James passou a integrar o selecionado nacional sub-21 e foi eleito o melhor jogador da equipe em 1990/91, sendo vital para a permanência dos Hornets no segundo nível.

Grandes promessa do futebol local, não tardou a migrar rumo a um grande clube. Em 1992, foi trazido pelo Liverpool por 1,25 milhão de libras. Permaneceu por sete anos em Anfield e viveu altos e baixos. Perdeu a condição de titular na segunda temporada, falhou na decisão da Copa da Inglaterra de 1996. Recuperou-se, mas a verdade é que nunca foi unanimidade a ponto de, enquanto jogador dos Reds, jamais conseguir consolidar um lugar na seleção inglesa.

Imagem de Amostra do You Tube

A partir do Aston Villa, em 1999, David James passou a jogar em times de médio porte do futebol britânico, sendo vendido por 3,5 milhões de libras ao West Ham United – três vezes mais do valor pago ao Liverpool dois anos antes. Resultado da valorização e maturidade do jogador.

Nem o rebaixamento do West Ham, em 2002/03, manchou a credibilidade de David James, trazido pelo ainda pobre Manchester City com a missão de substituir David Seaman, assim como no English Team. David James assinou com o Portsmouth em 2006, depois do conturbado divórcio com a ex-esposa Tanya, para ficar mais próximo dos filhos, em Londres.

No Portsmouth, com pompa de veterano e capitão, foi do céu ao inferno. Um dos protagonistas da histórica conquista da Copa da Inglaterra 2007 e do debute do clube em competições continentais no ano seguinte – pela Copa da UEFA –, David James ganhou a idolatria de torcedores e diretores. Viveu dias difíceis, no entanto: esteve no epicentro da perfomance desastrosa do Pompey na temporada 2009/10, que culminou no primeiro de uma série de rebaixamentos da equipe, à beira da falência.

Imagem de Amostra do You Tube

Trajetória “alternativa”

David James tomou, durante o Mundial da África do Sul, o lugar de Robert Green no English Team. Nem o “roubo” da vaga, todavia, bastou para colocá-lo no radar dos times da Premier League. A crise econômica do Portsmouth impediu um acordo decente entre os diretores do Pompey e o jogador, que optou por assinar com o Bristol City, da segunda divisão.

Foram duas temporadas em Bristol e saída em julho de 2012, para treinamentos no Exeter City, do quarto nível do futebol inglês. David James logo depois assinou com o Bournemouth, permanecendo na segunda divisão. Mas 19 jogos bastaram para ele entrar em litígio com a comissão diretiva do clube e rescindir o compromisso que teria dois anos de duração.

Assim, David James resolveu mudar de país: “Eu não sabia muito sobre o futebol na Islândia, mas meus olhos foram abertos e estou impressionado com o que vi aqui”, disse David James na coletiva de apresentação ao ÍBV Vestmanneyjar. O modesto time islandês deu ao guarda-metas a primeira experiência profissional longe (e bota longe nisso) de terras britânicas.

A convite do ex-companheiro de Portsmouth, Hermann Hreidrasson, treinador-jogador do ÍBV, David James se dirigiu ao país nórdico não apenas para liderar e destilar um pouco de sua vasta experiência à equipe, que cambaleava na liga local, como também desempenhar a função de assistente técnico.

A presença do arqueiro aumentou de maneira voraz o público do campeonato nacional. Embora considerado uma estrela, David James, segundo o próprio presidente do ÍBV, não fora à Islândia com um intuito publicitário, mas para adquirir conhecimentos com Hreidrasson, de modo a tornar-se treinador principal. Seus salários nem ultrapassavam o teto do clube.

Em campo, David James esteve por 1.665 minutos e sofreu 23 gols nos 17 jogos. O ÍBV terminou o Campeonato Islandês 2013 na sexta posição e David James declarou que, enfim, penduraria as chuteiras. Menos de um ano após declarar-se aposentado, David James já estava de volta aos gramados. Contratado para ser o grande nome do Kerala Blasters na Indian Super League, acumularia, a exemplo do amigo Hreidrasson, as funções de jogador e técnico. E não dá para chamar de fiasco a passagem do “vovô” pela Índia.

David James deixou de ser vazado em cinco das 12 pelejas que disputou, todas como titular – 1.010 minutos em campo. O Kerala Blasters despachou nas semifinais o Chennayin FC, melhor time da primeira fase, e foi à decisão contra o Atlético de Kolkata. A derrota na final, com o gol marcado no último minuto dos acréscimos, não apaga o bom trabalho de David James na edição inaugural do torneio.

Futuro promissor?

A bem sucedida passagem no comando do Kerala Blasters deixa impressão positiva quanto ao futuro de David James. O goleiro já havia manifestado, em 2010, o interesse de dirigir o Portsmouth, que demitira o israelense Avram Grant, atual treinador de Gana na Copa Africana de Nações 2015. Mas negociação não vingou: o Pompey, já à deriva, preferiu trazer Steve Cotteril e David James, desapontado, deixou Fratton Park.

Então no futebol islandês, David James não se furtou em, uma vez mais, declarar-se apto em tornar-se membro da comissão técnica do Portsmouth. Na ocasião, a instituição demitira Guy Whittingham, depois de um início sofrível na quarta divisão inglesa. Com o cargo vacante, o ex-arqueiro, ao lado de Hermann Hreidarasson, planejava reeditar a parceria do ÍBV. Richie Barker, porém, foi o escolhido.

Rejeitado na equipe que defendeu entre 2006 e 2010, David James recebeu acolhimento de seu time de infância. O Luton Town foi quem lhe agraciou, em outubro de 2013, com um estágio junto a John Still, treinador do clube, tendo em vista contribuir na formação do ex-jogador na licença A do curso de treinadores da UEFA.

“Ele tem personalidade, é um vencedor e ama futebol”, afirmou, sem pestanejar, Paul Merson, hoje comentarista da Sky Sports, quanto à capacidade do antigo colega de Aston Villa e English Team como treinador. “David James foi diferente de todos os goleiros com quem eu trabalhei. Estava sempre envolvido com os assuntos da equipe, parecia focado em seu trabalho e no de outras pessoas ao mesmo tempo”.

Merson ainda ressaltou que o período na Índia foi o pontapé inicial certeiro na nova carreira de David James. As ideias trocadas com treinadores e jogadores oriundos de diversos cantos do mundo ofereceram um know-how ímpar ao jogador/treinador do Kerala Blasters.

Com relação ao preconceito na Inglaterra, David James é cético. Na Premier League 2014/15, nenhuma das 20 equipes é dirigida por um negro, fato que, de acordo com o ex-guarda-metas, não está atrelado a um suposto racismo. “Olhando para os últimos treinadores afro-descendentes demitidos, veremos que fizeram trabalhos bem desapontadores. Não dão motivos para que lhe deem um emprego”. Quem sabe no futuro David James não estará com a prancheta nas mãos num grande clube?

Informações

- Prejuízos em investimentos particulares e, sobretudo, o divórcio da ex-mulher Tanya, em 2005, fizeram com que a fortuna de 25,5 milhões de euros acumulada por David James durante a carreira fosse por água abaixo. Enquanto se aventurava na Indian Super League, os jornais britânicos noticiavam sua falência. As publicações afirmaram que o ex-jogador foi à bancarrota em maio de 2014 pelos tribunais. Embora tenha se mantido alguma discrição por algum tempo, David James decidiu leiloar muitos de seus bens para pagar aos credores, como mais de 150 camisas usadas e trocadas pelo arqueiro durante a carreira, calções, bolas autografadas, um carro, várias bicicletas e até uma caneca personalizada.

- No segundo semestre de 2014, David James perdeu para Frank Lampard o segundo posto no ranking de jogadores que mais vezes entraram em campo pela Premier League. Com 573 jogos na conta, seu terceiro lugar é ainda ameaçado por Gareth Barry, do Everton (522), e Rio Ferdinand, do Queens Park Rangers (493). Até 2010, David James liderava a lista, quando foi ultrapassado pelo galês Ryan Giggs, que alcançou 632 partidas pela liga inglesa pós-1992.

- No Kerala Blasters, dois brasileiros estiveram entre os comandados de David James: o defensor Erwin Spitzner,de 20 anos, e o atacante Pedro Gusmão, de 22.  Ambos foram emprestados ao time indiano pelo Atlético Paranaense.

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