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Boca Juniors de Cali: o xará argentino já foi grande na Colômbia

Três Mundiais de Clubes, seis Libertadores, outras nove taças continentais e 30 títulos argentinos. Uma torcida tão fanática e pulsante que se autodenomina o jogador número 12 e costuma fazer de sua casa, em formato de caixa de bombom, um lugar tanto quanto amargo para os visitantes. Sua camisa auriceleste, inconfundível, já vestiu célebres nomes do futebol mundial – um deles é Carlitos Tévez, que depois de muito brilhar na Europa acaba de retornar.

De história, tradição e força imensuráveis, o Boca Juniors é mais que um time de futebol. E, portanto, capaz de emergir sentimentos múltiplos. Indiferença, jamais.  Seja o despertar da paixão aos seus, o ódio e repulsa dos rivais até a admiração de outros tantos.  Serviu de inspiração, quando ainda tracejava as primeiras glórias, para um grupo de entusiastas a 6.600 km de distância, que devaneavam certo protagonismo futebolístico em suas terras. E não dá para dizer que não honraram o codinome Boca Juniors.

O grande Boca Juniors colombiano

Além do nome, escudo e uniforme foram copiados. A intenção era nascer já gigante e o Boca Juniors de Cali assim o fez em 1937. Em suas primeiras temporadas, alimentou a rivalidade local com o América de Cali (há cinco anos na segunda divisão) nos torneios regionais – os Diabos sucumbiram em 1940 por 5 a 0 em uma competição departamental. O clube ascendia na mesma proporção em que o profissionalismo tomava conta do futebol colombiano, a exemplo do que acontecia em outras nações sul-americanas.

O Campeonato Colombiano, unificado e com moldes semelhantes ao que é jogado atualmente, foi criado em 1948. O Boca Juniors decidiu não apressar o processo de estruturação administrativa e não se inscreveu. No ano seguinte, a primeira aparição: não havia equipes suficientes para o estabelecimento do sistema de acesso e descenso, participava do certame quem reunia condições de bancar salários e viagens ao redor do país por sete meses. Além dos auricelestes, debutaram na liga Atlético Bucaramanga, Deportivo Pereira e o extinto Huracán de Medellín. A oitava colocação, à frente de todos esses estreantes e do rival América de Cali, não foi nada mal.

O sétimo posto em 1950, à frente do Independiente Santa Fe, campeão dois anos antes, foi promissor. Na temporada seguinte, o Boca Juniors atingiu outro patamar: na edição inaugural da Copa Colômbia, o Boca Juniors fez 7 a 6 em cima do Independiente Santa Fe no placar agregado e ergueu seu primeiro troféu.

Na liga, por pouco o segundo caneco não veio: o Boca Juniors venceu 22 das 34 partidas e marcou 110 gols – 23 deles anotados pelo paraguaio Ángel Berni, vice-artilheiro do certame. Os 10 a 0 em cima do Atlético Nacional, fora de casa, e os 9 a 1 sobre o Huracán de Barranquilla até hoje figuram na lista de maiores goleadas do futebol colombiano. Números que bastaram para superar todos os demais times, com exceção do Millonarios de Alfredo Di Stéfano, que com 11 pontos a mais festejou o título.

Único rival à altura do poderoso Millonarios, lembrado até hoje como um dos grandes esquadrões colombianos, o Boca Juniors continuou levando desvantagem para o adversário. Em 1952, o Millionarios levou o Campeonato Colombiano, mas na Copa Colômbia deu Boca Juniors: Di Stéfano e companhia não foram capazes de reverter, em Bogotá, a vantagem de dois gols dos xeneizes em Cali. Bicampeonato assegurado, bem como a fama de copeiro e de protagonista nacional. Os tempos áureos, contudo, estavam com os dias contados.

O Boca Juniors esteve muito próximo da conquista da liga de 1953: guiado pelo potente quinteto de ataque formado pelos argentinos Roberto Rolando, Osvaldo Pérez e os paraguaios Porfírio Rolón, Atílio López e o supracitado Berni, terminou cinco pontos atrás do Millonarios. Na Copa, desta vez o adversário levou a melhor ao reverter derrota de 2 a 0 em Cali com três gols, num show de Alfredo Di Stéfano, ratificando a supremacia do Millonarios.

Aquela foi a última edição do torneio, que voltou a ser disputado provisoriamente nos anos 1960 e 1980 e de maneira definitiva apenas em 2008. O eldorado começava a ruir e vitimar várias equipes Colômbia afora, inaptas financeiramente a se sustentar no profissionalismo.

Em 1954, dez clubes jogaram o Campeonato Colombiano, oito a menos em relação a quatro temporadas anteriores. Os investimentos, reduzidos, passaram a se concentrar nas instituições de maior apelo popular. Embora rivalizasse dignamente, a comunidade boquense possuía muito menos adeptos que o América de Cali. Depois de participações discretas por dois anos consecutivos, os xeneizes ressurgiram com o terceiro lugar em 1956 e o vice-campeonato em 1957.

Sem títulos, patrocinadores e torcida numerosa, o Boca Juniors, que surgiu para ser grande, renegou o ostracismo iminente. Seus diretores optaram pelo retorno ao amadorismo, única via sustentável, cedendo a vaga na liga colombiana ao Deportivo Cali. Em nove temporadas como time profissional, foram 232 partidas, 117 vitórias, 46 empates e 69 derrotas, com 530 gols marcados e 385 sofridos.

Reduto de jovens craques

O Boca Juniors, a partir de 1958, seguiu com amistosos e competições não oficiais. Na década de 1970, chegou a ensaiar regresso ao profissionalismo. Alguns dos dirigentes, embevecidos pelo oportunismo, solicitaram ao Deportivo Cali a devolução do registro da federação colombiana cedido anos antes e a vaga na primeira divisão, o que foi prontamente negado pelos alviverdes, que não tinham obrigação alguma de abrir mão de seu lugar.

A partir de 1980, o Boca Juniors teceu sua vocação caçadora de talentos. Virou objeto de desejo de muitos jovens da periferia de Cali que sonhavam com o estrelato. Uma das peneiras mais concorridas do país, o clube especializou-se em recrutar jogadores e montar fortíssimos times que assombravam nas categorias inferiores do departamento de Valle de Cauca, extremo leste da Colômbia.

O clube boquense tornou-se uma das maiores fontes de abastecimento das divisões de base de muitas equipes ao redor da Colômbia, sobretudo as da própria Cali, mas sem que uma contrapartida financeira existisse. As escolinhas do Boca Juniors podem se orgulhar por ter podido contar, antes de todos, com os serviços de atletas que no futuro representariam a seleção colombiana: casos do meia Giovanni Hernández, de rica trajetória no futebol colombiano nos anos 1990 e 2000 e um dos grandes personagens da equipe campeã da Copa América 2001; o atacante Hugo Rodallega, de passagens relevantes por México e Inglaterra (defende o Fulham desde 2012); e o ex-gremista Edixon Perea. Os defensores William Conde, ex-companheiro de Thierry Henry no New York Red Bulls e Jean Pierre Rodríguez, hoje no América de Cali, chegaram a atuar pela equipe sub-23 dos Cafeteros.

Imagem de Amostra do You Tube

A última grande estrela a despontar no time xeneize foi Joa Rodríguez (foto). Filho de Willy Rodríguez, ex-jogador de Deportivo Cali e Junior de Barranquilla, recebeu tratamento especial dos coordenadores técnicos do Boca Juniors, cientes da joia que tinham nas mãos e que necessitava de atencioso lapide.

Não é exagero comparar ao zelo que Neymar teve no Santos quando ainda era um adolescente.  Artilheiro de todos os times infantis que participou, mudou-se para o Deportivo Quíndio em 2011, após ser convocado para a seleção colombiana sub-15 que disputaria o Sul-Americano. Destaque do torneio com quatro gols, ganhou contrato do Chelsea até 2020, mas, sem permissão de trabalho para atuar na Inglaterra, tem sido emprestado para ganhar rodagem: Uniautónoma, da elite colombiana, e Bastia (França) foram os destinos do atacante, que desde fevereiro de 2015 defende o Vitória de Setúbal. Ele integrou a seleção que disputou o Mundial sub-20 de 2015 na Nova Zelândia, deixando sua marca contra o Catar.

Dentre os feitos recentes das divisões de base do Boca Juniors estão a conquista da Copa Internacional AFISA sub-17 (2000), o Torneio Internacional das Américas sub-17 (2007) e sub-19 (2012) e o Mundialito sub-12 (2011). Na Colômbia, milita em torneios organizados pela Liga Vallecana, órgão que rege o futebol amador em Valle de Cauca.

A participação xeneize por lá, contudo, não se limita aos certames de base. O esquadrão adulto disputou até 2014 a Copa El País, competição que engloba as principais equipes semiprofissionais da região – o América de Cali envia o time sub-20. Depois de acumular cinco vice-campeonatos seguidos entre 2006 e 2011, os auricelestes abdicaram da busca pelo primeiro título e não se inscreveram para o campeonato de 2015.

Informações

- Fundada em 1993, a versão tupiniquim do Boca Juniors sobrevive no litoral do Sergipe. Assumidamente inspirado no clube argentino, o Boca Júnior de Estância possui escudo mais original. Com três títulos da segunda divisão sergipana, jogou a elite do futebol estadual em 2015. Com três rebaixamentos nas costas nas últimas nove edições, o Boca Júnior lutou para não sucumbir de novo. No Grupo B, o mesmo do Sergipe (esteve distante de jogar as semifinais), a equipe fez oito pontos em dez rodadas (2v, 2e e 6d) e se aproveitou do infortúnio alheio e do regulamento para permanecer na elite:  como apenas o lanterna de cada grupo amargava a queda, não enfrentou grandes problemas por causa do desempenho ridículo do Coritiba que, além de perder todos os jogos, ainda perdeu três pontos pela inscrição de jogadores irregulares. Se estivesse na outra chave, porém, a sorte seria outra: último colocado do Grupo A, o relegado Boquinhense somou 15 pontos, quase o dobro do Boca Júnior.

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