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Ewerson Batata: o brasileiro que rodou o mundo

Nome: Ewerson Eduardo Moreira “Ewerson Batata”

Data de nascimento: 07/07/1981 (30 anos)

Posição: atacante

Clubes: Corinthians-PR (1996-00), New England Revolution/Estados Unidos (2002), América/Nicarágua (2003-04), São Bento-SC (2005), Cidade Azul-SC (2006), Nacional-AM (2007), Al Oruba/Omã (2007-09), Xi Mang Hai Phong/Vietnã (2009), Khaitan/Kuwait (2009-10), Fanja Club/Omã (2010-11) e Al Itihhad Aleppo/Síria (2011-atual).

Contato: (041) 9613-5179 (TIM) | (041) 9118-9376 (Vivo)

Introdução

Jogador de futebol não pode ter medo de enfrentar desafios, desembarcar em países desconhecidos e aprender novas culturas na marra. Com Ewerson Batata, aconteceu exatamente assim. Com passagens por equipes de Nicarágua, Omã, Vietnã, Kuwait e até a conturbada Síria, o atleta tem um vasto repertório de histórias a contar.

Nesta entrevista exclusiva ao Plano Tático, Ewerson fala do pedido de naturalização, das dificuldades de adaptação em cultuas opostas à brasileira e dos perigos que viveu em solo sírio. Boa leitura!

Malutrom-PR

Ewerson disputou a tradicional Copa Tribuna, competição paranaense de juniores

Imagem de Amostra do You Tube

Você se profissionalizou no antigo Malutrom-PR, hoje Corinthians-PR, na melhor fase que o clube teve em sua história. Você disputou a terceira divisão do Brasil, em que o Malutrom foi campeão, ao vencer o Uberlândia-MG na final?

Não joguei o Campeonato Brasileiro, pois ainda pertencia ao elenco de juniores. Até cheguei a subir para treinar com os profissionais, mas não participei de nenhuma partida.

Você conheceu o meia Theco, que iniciava sua carreira no clube paranaense?

Conhecia ele sim. O Theco é um cara muito humilde e jogava da mesma forma que joga hoje. Depois que ele foi para um clube grande, teve a oportunidade que muitos querem ter, porque fica um pouco mais fácil, pois o jogador está sempre sendo visto, além do fato de a estrutura e o suporte que fornecem são outros. Afinal tudo é diferente entre clube pequeno e grande.

Em 2001 não há nenhum clube em sua ficha técnica. O que aconteceu?

Em 2001, eu fui para os Estados Unidos, mas fiquei sem jogar por um ano, pois estava passando por alguns problemas. Prefiro nao comentar sobre esse ano.

Nicarágua

Em 2003, você foi jogar no desconhecido América de Manágua, capital da Nicarágua. Na época, a equipe disputava a segunda divisão nacional o clube subiu no mesmo ano, ao ser vice-campeão. O que o levou a aceitar defender uma equipe de segunda divisão da Nicarágua? Quais eram seus objetivos?

Cheguei ao América por meio de um agente, para jogar por apenas seis meses e depois ir para um time da Suiça, com o qual tinha um pré-contrato. Durante minha estada na Nicarágua passei muita dificuldade, começando pelos treinamentos, que se iniciavam às 7h da manhã.

Foi difícil me adaptar no começo, por várias vezes me batia o arrependimento de ter aceitado tal proposta, porque tinha uma vida estavel nos Estados Unidos. Mas a vontade de ir para a Suiça falou mais alto e, como seis meses passam rápido, me aventurei. No fim, nada do que tinha pensado ocorreu. O nível da segunda divisão daquele país também era baixo demais e a gente acaba ficando ruim (risos).

Durante um programa ao vivo, lhe ofereceram a naturalização para defender a seleção de Nicarágua. Conte mais detalhes dessa história.

A pergunta surgiu durante um programa esportivo, tipo mesa redonda, depois de um jogo. Fiquei surpreso quando me perguntaram se tivesse uma proposta de me naturalizar para jogar na seleção nicaraguense, se aceitaria. Nossa, fiquei no começo sem saber o que responder e disse que responderia a essa pergunta antes do término do programa. No fim, disse que para mim não teria problema algum, mais teríamos que analisar a proposta financeira. Com certeza eu seria o primeiro brasileiro a jogar pela Nicarágua (risos).

Por que deixou a equipe, justamente quando esta alcançou a primeira divisão nacional?

Decidi deixar o América porque tinha o pré-contrato com o FC Zürich (Suiça), mas no final, quando cheguei ao Brasil, o clube europeu teve um problema com o agente, o profissional sumiu e acabei jogando no Brasil mesmo.

Você viveu um ano em Manágua, capital da Nicarágua, cidade de 2,2 milhões de habitantes atualmente. O que tinha para fazer na segunda maior cidade da América Central nos dias de folga?

Na verdade, não tinha muita coisa pra fazer, mas eu gostava de ir ao cassino, jantar fora, shopping e ir para a noite. Posso afirmar que vivia bem.

Santa Catarina

Após deixar o América, você foi contratado pelo São Bento-SC, que disputava a segunda divisão do Campeonato Catarinense. Ao final de 11 rodadas, a equipe ficou em penúltimo, com oito pontos, numa época em que Joinville, Atlético de Ibirama, Marcílio Dias, Brusque e Chapecoense, que disputaram a primeira divisão de 2012, faziam parte da segundona de 2005. Como era a disputa dentro de campo nos jogos?

O São Bento tinha um time muito bom, prova que no primeiro tempo das partidas a gente atropelava todos os adversários. Porém, na etapa final, a casa caía, porque o clube não dava estrura para os atletas. Comíamos marmita todos os dias, quem aguenta jogar assim? Fisicamente, os caras passavam por cima no segundo tempo (risos).

No ano seguinte (2006), você defendeu o Cidade Azul, hoje Clube Atlético Tubarão, que também figurava na segunda divisão de SC. Como era jogar para públicos mínimos, que mal passavam de 200 torcedores?

Cheguei para reforçar o time nas últimas rodadas, sempre é complicado jogar sem torcida porque, quando se tem o apoio das arquibancadas, a motivação é maior, a gente se doa mais dentro de campo.

Ao final de 11 rodadas, o Cidade Azul acabou caindo para a terceira divisão, por ter pior saldo de gols que o Brusque (ambos fizeram nove pontos). A diretoria lamentou de alguma forma mais veemente o rebaixamento? O que os dirigentes disseram?

Eu acabei não escutando muito sermão (risos), porque dois jogadores foram negociados com o Glória de Vacaria-RS e, logo em seguida, surgiu o interesse por mim também. Cheguei a ir com o presidente do Cidade Azul para negociar meu empréstimo com o clube gaúcho, mas ele queria ganhar muito dinheiro na transação e acabou não dando certo.

Fiquei chateado, não quis voltar para o Cidade Azul e fiquei sem jogar até acabar meu contrato. Mas, nessa passagem pelo Cidade Azul, voltei para casa com o maior título da minha vida, que foi ter aceitado Jesus como meu Senhor e meu Salvador. Foi aí que começou a verdadeira mudança na minha vida. Hoje faço parte da Igreja Viva 24 Horas, que tem como pastor-presidente o reverendo José Santana Santos e o ministério é por meio do esporte. Há muitos jogadores de clubes da primeira divisão do Brasil como membros da Igreja.

Nacional-AM

Em 2007, você mudou de ares e rumou para Manaus, a fim de defender as cores do Nacional. O que pode dizer sobre os torcedores do tradicional clube amazonense?

A torcida do Naça comparecia em massa aos jogos do time e até nos dias de treinamento. Eles torciam para valer, mas também cobravam muito os jogadores.

Naquele campeonato, em que o Nacional saiu vencedor, apenas o Princesa do Solimões não era da capital, mas distava apenas 79 km de Manaus. O que pôde perceber sobre a rivalidade entre os clubes de Manaus no dia a dia?

A rivalidade [entre os time da capital] é muito grande. Naquele ano, o FAST estava com um grupo forte os jogos eram bons, bastante disputados. Por outro lado, em relação ao São Raimundo, nem preciso falar sobre a enorme rivalidade entre os dois. Quando eu, Alex e Pilo [jogadores do Nacional] estávamos no shopping ou na rua, os torcedores vinham tirar fotos, pedir autorgráfos e também cobrar, especialmente quando perdíamos. Eu tinha uma boa relação com os torcedores.

Ásia

A partir de 2007, sua carreira rumou para o Oriente Medio, sendo o Al Oruba (Omã) seu primeiro time. A temporada 2007-08 foi muito boa, com o clube conquistando os títulos da primeira divisão de Omã e da Supercopa Nacional. Como avalia o futebol no país?

Fui muito abençoado por Deus, pois terminei como artilheiro da liga nacional, além dos titulos conquistados. Assim, renovei contrato por mais dois anos com o Al Oruba. Na temporada 2008-09 não conquistamos títulos, mas terminei como artilheiro novamente e fui vendido para o Vietnã, antes de terminar meu contrato.

Hoje em dia não tem mais ninguém bobo no futebol. Bobos são os brasileiros que vêm para fora e pensam que vão deitar, que vai ser fácil. O futebol exige que o atleta esteja bem preparado fisicamente e psicologicamente e o futebol do Oriente Médio tem muita correria, mesmo jogando as 7h da noite, sem contar o calor, na faixa de uns 35 a 38 graus. O futebol de Omã está crescendo cada vez mais, a seleção foi campeã da Copa do Golfo 2009 [venceu a Arábia Saudita, nos pênaltis, dentro de casa], enfim, há muito investmento a cada ano no país, tem muito jogador técnico e o campeonato está bem organizado.

Quais as principais dificuldades de adaptação que teve assim que chegou a Sur, cidade a 150 km de Muscat, capital de Omã? O que você fazia na cidade nas horas vagas?

Tive dificuldade com a alimentação, não sabia pedir as comidas porque não conhecia a culinária e na cidade de Sur não havia muitas opções de pratos, o jeito era provar cada dia uma coisa (risos). O calor também foi um dos fatores ruins no começo, sem contar que em Sur não tinha nada para fazer, a não ser ir para a praia, o que era praticamente impossível, pois o calor de dia era insuportável. Nas minhas folgas ia a Muscat para frequentar os shoppings. E no ano que estava lá não era apenas 1h e 30 minutos, eram 3h e 30 minutos de carro.

A seleção nacional de Omã está na Fase Final das Eliminatórias Asiáticas para a Copa de 2014, feito inédito na história. Pelo que pôde acompanhar, está sendo surpresa a boa campanha de Omã? Explique.

A boa campanha de Omã nas Eliminatórias para a Copa de 2014 não é surpresa nenhuma para mim, pois a equipe tem bons jogadores. Até queria que eles se classificassem para Copa.

Gols de Ewerson pelos clubes de Omã

Imagem de Amostra do You Tube

Em 2009, você atuou pelo Xi Mang Hai Phong, do Vietnã, que estava na primeira divisão. No mesmo ano, o meia Denilson (ex- São Paulo, Betis, Palmeiras) jogou no mesmo time. O que pode falar dele?

Com relação ao Denílson, chegamos juntos para reforçar o Xi Mang Hai Phong. Ele é um cara muito brincalhão, até chora para contar uma piada, mas é fraco no Playstation (risos). Fazíamos churrascos junto com os outros dois brasileiros que também estavam lá.

Fale sobre a escrita do vietnamita. O que pôde aprender sobre o idioma? O que pode dizer acerca da qualidade do futebol local?

No que tange ao idioma, não aprendi nada, é muito difícil. Já o futebol é de um nível bom, pois há muitos estrangeiros nas equipes.

Na temporada 2009-10, você jogou pelo Khaitan SC (Kuwait), que figurava na segunda divisão nacional. O que o levou a deixar um time do Vietnã para defender um de uma divisão inferior do Kuwait? Explique.

A principal razão para eu sair do Vietnã  foi porque eu já tinha uma proposta do Kuwait e, pensando no lado familiar, estaria melhor com minha família no Kuwait que no Vietnã. Não cheguei nem a levá-los [para o Vietnã]. Outro fator que me levou ao Kuwait foi o lado financeiro, pois naquele país é bom de se jogar e se paga bem. A minha besteira foi não querer renovar meu contrato com o Khaitan, depois de ser artilheiro da liga, mas amém, paciência. Aí eu acabei voltando para Omã na temporada de 2010-11.

Síria

Na atual temporada (2011-12), você veste a camisa do Al Ittihad (Síria), da cidade de Aleppo, a maior do país, com 2,1 milhões de habitantes. Você mora a 194 km da cidade de Homs, centro da guerra civil instalada na Síria. Como é o seu dia a dia? Há alguma confusão onde mora? O que houve falar das revoltas dentro do país a partir da imprensa local?

Meu dia a dia tem sido de casa para o treino e do treino para casa, procuro não ficar dando mole na rua. Ás vezes à noite escuto bem próximo de onde moro rajadas de vários calibres. No começo foi assustador, mas aos poucos fui me acostumando, porque sei que meu Deus está comigo, mil cairão a minha direita e milhares a minha esquerda, mas eu não serei atingido.

Não tive coragem de trazer minha família pelo perigo, o maior medo foi depois de uns três ataques com bombas, que chegaram a tremer as janelas do meu quarto. Mas como estávamos disputando os jogos da Copa da Ásia de Clubes fora do país [a Confederação Asiática de Futebol proibiu a realização de partidas em solo sírio, em razão da violência] e viajávamos bastante, o tempo foi passando. A situação está feia, ainda mais depois que houve o acordo de cessar fogo. Parece que aumentaram os problemas, na TV local eu vi cada coisa que é complicado falar, coisas que nunca vou esquecer na minha vida: muita morte, corpos mutilados por causa das bombas. Nunca pensei que ia ver e estar numa guerra.

Na AFC Cup 2012, o Al Ittihad também já está eliminado, ao somar apenas quatro pontos em cinco rodadas (1v, 1e, 4d), com um gol seu, na derrota para o Al Faisaly (Jordânia), por 4 a 1. Em que medida a proibição da Confederação Asiática de Futebol de os clubes sírios jogarem dentro de casa atrapalhou a campanha?

Na semana passada sentei com o clube e fiz um acordo para ir embora, porque havia viajado na semana anterior de ônibus para jogar numa cidade a quatro horas de Aleppo e não achei seguro. Como o time está numa situação um pouco melhor na liga [disputa o Torneio da Morte e está em quarto, com 13 pontos, um ponto a mais que o Hottin, primeiro da degola, que tem um jogo a mais; faltam dois jogos para o Al Ittihad Aleppo], os dirigentes concordaram em me liberar. Um fator que atrapalhou muito a campanha no torneio continental foi jogar todos os jogos fora de casa, ainda mais na casa do adversário. Acho que a diretoria não foi muito feliz com essa decisão, porque nosso mando poderia ser em outro país aqui perto, em campo neutro.

Futuro

Com quase 30 anos, quais são seus planos para o futuro?

Meus planos tenho deixado nas mãos de Deus, tenho orado muito para fechar um contrato bom e com um clube bom. De uns dois a três anos a situação está muito complicada aqui na Síria, acho que nenhum estrangeiro irá querer vir para o país nesse momento. Até agora não tenho nenhuma proposta concreta, mas tem umas pessoas vendo algo para mim. Deus já esta abrindo outra porta.

Até onde pretende chegar e quais são seus sonhos no futebol?

Pretendo chegar até onde Deus permitir, meu sonho ainda é jogar no Atlético Paranaense, para realizar não só o meu sonho, mas de toda a minha família, que é atleticana. Não sei se será possível, pois estou há muito tempo fora do Brasil e para conseguir entrar no Atlético-PR tem que ter muito conhecimento e contatos. Mas, como eu sirvo ao Deus do impossível e se Ele está operando, quem impedirá?

Estou voltando para o Brasil e quero defender equipes do nosso país. Estou a espera de contatos, quem sabe.

Você já passou por muitos países e pôde ver de perto a situação de vida de muitos povos. Em sua opinião, o brasileiro vive bem em comparação com os habitantes dos países em que já morou?

Eu acho que vive muito bem, porque pobreza vi em todos os lugares e até situações piores do que no Brasil. O brasileiro, independentemente da situação em que se encontra, é feliz. Isso não vi em nenhum dos países pelos quais passei. Isso diferencia o brasileiro de outros povos.

Deixe uma mensagem para os jovens brasileiros que desejam se tornar jogador de futebol.

Para a mulecada que está começando aí vai meu recado. Primeiramente, entregue sua vida a Jesus, porque a caminhada é longa e sem Ele ficará mais difícil ainda. Não pense que ser jogador vai ser fácil e vai enriquecer rápido, são poucos os que se destacam. Há espaço para todos, mas nunca passe por cima de ninguém para consegui-lo, procure agir sempre com honestidade, primeiramente com você mesmo e depois com os outros. Treine muito, porque sempre tem alguém observando. Boa sorte, Deus abençoe e nunca desista de seus sonhos, porque sempre virá alguém tentar fazer você desistir deles!

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