Adriano Strack, mais um jogador brasileiro a ganhar a vida no exterior

Adriano Guerra Strack é natural de Carazinho, cidade de pouco mais de 60 mil habitantes no interior do Rio Grande do Sul. Desde os dez anos, ele tem de enfrentar várias dificuldades para realizar e viver o sonho de ser jogador profissional.

Aos 23 anos, o atacante brasileiro vive no exterior desde 2014, quando assinou com o Travnik (Bósnia Herzegovina). Porém, mal sabia ele que suas maiores dificuldades aconteceriam justamente no tempo recente. O começo de sua empreitada no Novi Pazar (Sérvia), da elite nacional, foi excelente, com estreia diante do poderoso Partizan Belgrado, em casa.

Era a terceira rodada do Campeonato Sérvio 2015/16 e o Novi Pazar contou com o apoio de 5 mil torcedores e a qualidade de Adriano Strack por dez minutos (entrou aos 36 do segundo tempo) para vencer o adversário por 3 a 2. Na época, a expectativa do jogador brasileiro era alta: “O clube vendeu bons jogadores na temporada passada e ficou em quinto [a dez pontos dos torneios europeus]. Nessa temporada o objetivo é o mesmo e quero ajudar o clube ao máximo, pois a estrutura é boa e a torcida fanática”, disse o atleta em entrevista exclusiva ao Plano Tático.

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Entretanto, a expectativa de Adriano Strack ficou longe de se realizar: ele ficou apenas quatro semanas no Novi Pazar, que acabou não cumprindo com o combinado, de acordo com o jogador: “Eles não me pagaram o  que havia sido acordado e ainda deram dinheiro para o empresário sem vergonha que me levou para fazer teste”.

Diante da situação, Adriano Strack preferiu rescindir o contrato e teve de esperar duas semanas pela devolução de seus documentos. Mas a aventura do jovem jogador brasileiro não parou por aí. Adriano Strack desejou sair da Sérvia exatamente porque já tinha acertado com o KTP, integrante da primeira divisão nacional e atualmente na antepenúltima posição, dois pontos acima da zona de rebaixamento.

“O clube pagou tudo para eu vir até a Finlândia, não gastei um centavo. Cheguei, assinei contrato e treinei por uma semana, fazendo gol e arrebentando nos treinos. De repente, fiquei sabendo que os dirigentes não tinham mandado meu contrato para a federação e meu treinador me avisou que não iria me utilizar”.

Diante da resposta, Adriano Strack não pensou duas vezes e assinou com o Mikkelin Palloilijat, mais conhecido como MP, da segunda divisão. A apresentação ocorreu ontem (30 de agosto/2015) e o atleta precisará entrosar com os companheiros o mais rápido possível, pois o MP soma 14 pontos em 20 jogos (4v, 2e, 14d), no nono lugar dentre dez times, a quatro de se salvar da zona de rebaixamento – faltam sete rodadas para o fim.

A intenção de Adriano Strack é apenas manter a forma até o final de 2015 (a última rodada será em 17 de outubro), quando deve ir para o futebol marroquino: “Um empresário prometeu um time de lá, mas sabe como é…”, disse o jogador ao Plano Tático.

Os anos de Adriano Strack no futebol brasileiro

A primeira grande viagem do jogador foi ainda pré-adolescente, rumo a Caxias do Sul, para jogar nas divisões de base do Juventude, que naquela época ainda não tinha sofrido os seguidos rebaixamentos até a quarta e última divisão do Brasil (está na Série C 2015, brigando por vaga nas quartas de final)

“O começo foi muito complicado, pois precisei me adaptar muito cedo longe de casa, foi quase impossível. Mas depois de certo tempo fui me acostumando, pois queria jogar no Juventude”, explica Adriano Strack em entrevista exclusiva ao Plano Tático.

Após deixar o Juventude, Adriano Strack passou nas bases de Grêmio e São José, mas voltou a Caxias do Sul para se profissionalizar no clube, numa época em que jogadores conhecidos atuavam lá, como Zezinho (hoje no Atlético Goianiense), Bressan (Grêmio, Flamengo) e Alex Telles (Grêmio, Galatasaray). Mas Adriano Strack se lembra de outros:

“Tem o Ramiro (Grêmio) e o Gustavo Campagnharo (Évian/França) que jogaram comigo no Juventude, mas também já fui companheiro do Cassiano (Gwangju/Coreia do Sul) e do Samuel Gonçalves (Sport Recife) no São José e do Fernando (Sampdoria/Itália) no Grêmio”, explica Adriano Strack.

Nos dois anos em que o jogador defendeu o Juventude, a equipe de Caxias do Sul foi rebaixada para a Série D 2010 e acabou eliminada ainda nas oitavas de final da quarta divisão de 2011, pelo Mirassol. Adriano Strack compara o início da carreira na base com as temporadas nos profissional: “Em 2002, quando cheguei lá, o Juventude tinha estrutura fantástica e muitos jogadores que hoje estão em grandes clubes, como Thiago Silva (PSG) e Naldo (Wolfsburg/Alemanha). Oito anos depois, as coisas estavam bem complicadas, o Juventude caiu muito, mas a estrutura ainda prevalece, principalmente nas categorias de base. Eu acredito que o clube vai voltar aos bons tempos”, explica.

Em seguida, Adriano Strack passou a defender a Chapecoense, mas nos juniores, vendo de perto a subida de patamar da Série C até a Serie A em cinco anos. Para ele, “a administração do clube foi fundalmental, mas a torcida abraçou a causa e lotava sempre a Arena Condá, além do apoio da cidade e de boas contratações”.

As aventuras europeias de Adriano Strack

Sem atuar pela Chapecoense nos profissionais, Adriano Strack só fazia alguns treinos com os mais velhos e não tinha muita expectativa de passar a defender o clube profissionalmente. A saída dele da equipe foi conturbada: “Acionei a Chapecoense na Justiça, pois eles me prometiam dar chance nos profissionais e isso nunca aconteceu. Acabamos entrando em acordo”, esclarede o atleta. Então, “apareceu a oportunidade de ir para a Bósnia Herzegovina por meio de um empresário e decidi arriscar”, lembra Adriano Strack.

O jogador passou a defender o Travnik, da cidade de mesmo nome (16 mil habitantes), segundo o jogador um local pequeno, mas bom de conviver. Porém, as dificuldades foram muitas: “Sofri muito no começo com a alimentação e a cultura dos bósnios, mas tive mais problemas com o idioma. Descobri que lá tinha feijão após dois meses, pois vi no mercado que se chamava gra. Cheguei num restaurante, falei gra e eles me trouxeram uma sopa de feijão, uma das melhores que comi na vida”, lembra Adriano Strack, que na época não sabia falar inglês e muito menos bósnio, mas foi aprendendo com o tempo.

Lances da carreira de Adriano Strack

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Num elenco de maioria de atletas bósnios, croatas e sérvios e um jamaicano, Adriano Strack teria passado por mais dificuldades caso não tivesse chegado o português Marcos Nunes [tem nacionalidade canadense]: “Quase dois meses depois de minha chegada, o Marcos Nunes passou a jogar no Travnik e tudo melhorou para mim por causa do idioma, já que eu não conversava com ninguém”.

Os dois jogadores são melhores amigos até hoje e Adriano Strack reconhece a importância da experiência, “a maior da minha vida com certeza”. Dentro de campo, a passagem do brasileiro foi de duas partidas, mesmo treinando forte e se destacando: “Perguntei ao presidente por que não era utilizado e ele disse que eu poderia ir embora se quisesse, mas preferi ficar treinando até o final da temporada”.

A virada na carreira. A situação de Adriano Strack como jogador de futebol estava ameaçada. Na última partida do Campeonato Bósnio, o Travnik precisava vencer para não ser rebaixado à segunda divisão e encarou o Borac Banja Luka, equipe forte na liga local. O time perdia de 2 a 0 e o brasileiro entrou em campo a um minuto do segundo tempo. Ao fim da partida, o Travnik havia virado para 3 a 2, com um gol e uma assistência de Adriano Strack, que virou herói:

“Esse jogo salvou a minha carreira, pois iria parar de jogar caso não desse certo na Bósnia Herzegovina. Foi coisa de filme, pois eram os 45 minutos finais do campeonato e não tinha atuado quase nada. Agradeço até hoje por esse dia, um dos mais felizes da minha vida”, emociona-se Adriano Strack.

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A partida manteve o contrato de Adriano Strack para 2014/15, mas ele saiu do Travnik na metade da temporada rumo ao modesto Dugopolje (Croácia), da segunda divisão (obteve a maior goleada da quinta semana do TOP 10 Goleadas Sensacionais): “A questão financeira e estrutural na Croácia era melhor (o salário foi duas vezes maior que na Bósnia Herzegovina), mas ainda havia a possibilidade de eu me transferir para o Hajduk Split [um dos grandes clubes do país] caso me destacasse, pois havia uma parceria entre as equipes”.

Porém, o brasileiro fez uma escolha errada: “Fiquei sem atuar por causa de documentação e só joguei as duas primeiras partidas, mas estava irregular e o clube quase perdeu pontos”. Sem Adriano Strack, o Dugopolje se salvou da queda para a terceira divisão por um ponto e ao fim da temporada ele saiu rumo ao Novi Pazar.

Depois de atuar em três países da ex-Iugoslávia, Adriano Strack compara Croácia e Bósnia Herzegovina: “A Croácia é um país melhor, com mais dinheiro e estrutura, mas a Bósnia Herzegovina é bom de morar, gostei de lá e tenho muitos amigos. Os idiomas são parecidos, com algumas poucas diferenças”, diz o brasileiro ao Plano Tático.

O futuro de Adriano Strack

Mesmo com todas as dificuldades e experiências que o futebol proporcionou, Adriano Strack tem apenas 23 anos e várias metas na carreira: “Quero jogar num grande clube da Europa, não importa de qual país. Infelizmente estou levando mais tempo para isso do que pensava, pois não tenho empresário e isso dificulta bastante. A única ajuda de empresários foi para eu jogar no Travnik, desde então sou eu quem administra minha carreira. Mas sei da minha força de vontade”, explica o atleta, que está estudando muito inglês e se preparando para o futuro. Que a Finlândia seja um lugar de aprendizado para Adriano Strack e que não haja mais problemas com salários e contratos, não é mesmo?

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